Última Carta para Leon Trotsky

Adolf Joffé(1)

15 de Novembro de 1927


Primeira Edição: ........
Fonte: Barlavento - Observatório de Esquerda.
Tradução de: ......
Transcrição: Daniel Domingues Monteiro
HTML de:
Fernando A. S. Araújo, Setembro 2008.
Direitos de Reprodução: ....


Para Leon Trotsky

Caro Leon Davidovitch,

Durante toda a minha vida acreditei que um homem político deve saber quando é chegado o momento de se retirar, assim como um ator deixa a cena, e que é melhor para ele sair mais cedo do que tarde demais.

Durante mais de trinta anos assumi a idéia de que a vida humana só tem significado na medida em que está à serviço de alguma coisa infinita. Para nós, a humanidade é esse infinito. Todo o resto é finito, e trabalhar em prol desse resto não tem sentido. Mesmo se a humanidade um dia conhecer uma significação acima dela mesma, ela somente se tornaria clara em um futuro tão distante que, para nós, a humanidade seria, contudo, algo completamente infinito. Se acreditamos, como eu, no progresso, podemos admitir que quando o planeta desaparecer, a humanidade terá há muito descoberto o meio de emigrar e de se instalar nos planetas mais novos. É nessa concepção que eu, dia após dia, dei sentido à vida. E quando olho hoje meu passado, os vinte e sete anos passados que vivi nas fileiras do partido, acredito poder dizer com razão que, durante todo o percurso consciente de minha vida, permaneci fiel a essa filosofia. Sempre vivi segundo o preceito: trabalho e combate para o bem da humanidade. Acredito também poder dizer com razão que cada dia de minha vida teve seu sentido.

Mas parece-me agora que é chegada a hora em que minha vida perde seu sentido, e é por isso que sinto o dever de dar-lhe um fim.

Há alguns anos os dirigentes atuais do nosso partido, fiéis à orientação de não dar aos membros da oposição nenhum trabalho, não me permitiram nenhuma atividade, nem política, nem no trabalho soviético, que corresponda às minhas aptidões. Há um ano, como você sabe, o bureau político me proibiu, como membro da oposição, qualquer trabalho político. Minha saúde não cessou de piorar. No dia 20 de setembro, por razões desconhecidas por mim, os especialistas da comissão médica do comitê central me examinaram. Estes declararam categoricamente que a minha saúde estava bem pior do que eu imaginava, e que eu não deveria ficar nem mais um dia em Moscou, nem permanecer uma hora a mais sem tratamento, mas que eu deveria imediatamente partir para o exterior, para um sanatório conveniente.

À minha questão direta: "Qual chance tenho de me curar no exterior e eu não poderia me tratar na Rússia sem abandonar o meu trabalho", os médicos e assistentes, o médico em atividade do comitê central, o camarada Abrossov, um outro médico comunista e o diretor do hospital do Kremlin me responderam em unanimidade que os sanatórios russos não podiam cuidar de mim, e que eu deveria experimentar um tratamento no ocidente. Eles acrescentaram que, se seguisse seus conselhos, mesmo assim ficaria um longo período sem trabalhar.

Depois disso, a comissão médica do comitê central, mesmo que ela tenha decidido me examinar por iniciativa própria, não fez nada, nem para a minha partida para o exterior, nem para o meu tratamento em solo russo. Ao contrário, o farmacêutico do Kremlin, que, até então, tinha me fornecido os remédios que me foram prescritos, foi proibido de o fazer. Eu estava assim privado dos remédios gratuitos com os quais eu estava sendo beneficiado até então. Isso aconteceu, parece-me, no momento em que o grupo que se encontra no poder começou a aplicar sua solução contra os camaradas da oposição: um soco no estômago da oposição.

Enquanto eu estava bem para trabalhar, tudo isso não me preocupava muito; mas quando eu comecei a ficar mal, minha esposa se dirigiu à comissão médica do comitê central e, pessoalmente, ao doutor Semachko, que sempre afirmou publicamente que era necessário de tudo fazer para "salvar a velha guarda"; mas ela não obteve resposta, e tudo o que ela conseguiu foi um resumo da decisão da comissão. Eles enumeraram minhas doenças crônicas e afirmavam que eu deveria permanecer por volta de um ano em um sanatório como o que o professor Riedländer foi. Há oito dias que eu deveria ficar de cama definitivamente, pois meus maus crônicos, nessas circunstâncias, naturalmente se agravaram, e sobretudo a pior dentre elas, a polineurite, que voltou a ficar aguda, me causando sofrimentos quase intoleráveis e que me impedem de andar.

Fiquei nove dias sem nenhum tratamento e a questão de minha viagem ao exterior não foi retomada. Nenhum dos médicos do comitê central me visitou. O professor Davidenko e o doutor Levine, que foram chamados à minha cabeceira, me prescreveram bagatelas, que declaradamente não podem curar, e reconheceram que não podiam nada fazer e que uma viagem ao exterior era urgente. O doutor Levine disse à minha mulher que a questão se agravava visto que a comissão pensava evidentemente que ela queria me acompanhar, " o que tornaria a viagem muito cara". Minha mulher respondeu que, em função do estado lamentável no qual eu me encontrava, ela não insistiria em me acompanhar, nem ela, nem ninguém. O doutor Levine nos assegurou então que, nessas condições, a viagem poderia ser acordada. Ele me repetiu hoje que os médicos não podiam fazer nada, que o único remédio que restava era a minha partida imediata para o exterior. Depois, nessa noite, o médico do comitê central, o camarada Potiomkrine, notificou minha mulher da decisão da comissão médica do comitê central de não me enviar ao estrangeiro, mas de me tratar na Rússia. A razão foi que os especialistas previram um longo tratamento no exterior e estimaram uma curta estadia inútil, visto que o comitê central não poderia dar mais de 1000 dólares para meu tratamento e estimava impossível dar mais.

Na minha estadia no exterior há algum tempo atrás, recebi uma oferta de 20 000 dólares pela edição de minhas memórias; mas como elas devem passar pela censura do bureau político, e como eu sei bem quanto, em nosso país, falsifica-se a história do partido e da revolução, não vou nem me dar ao trabalho a esse tipo de falsificação. Todo o trabalho de censura do bureau político teria consistido em me proibir uma apreciação verídica das pessoas e de seus atos - tanto dos verdadeiros dirigentes da revolução como daqueles que se gabam de terem sido. Hoje não tenho nenhuma possibilidade de me tratar sem obter dinheiro do comitê central, e este, após meus vinte e sete anos de trabalho revolucionário, não acredita poder estimar minha vida e minha saúde em um preço superior a 1000 dólares. É por isso, como te disse, que é tempo de acabar com a minha vida. Eu sei que a opinião geral do partido não admite o suicídio; mas acredito, contudo, que aqueles que compreendem minha situação não vão me condenar. Se eu estivesse com boa saúde, encontraria a força e a energia para combater a situação existente no partido; mas, no meu presente estado, não posso suportar um estado de fato no qual o partido tolera em silêncio tua exclusão, mesmo que eu esteja profundamente persuadido que, cedo ou tarde, se produzirá uma crise que obrigará o partido a expulsar aqueles culpados de uma tal ignonímia. Nesse sentido, minha morte é um protesto contra aqueles que conduziram o partido tão longe ao ponto dele não poder nem mesmo reagir contra um vergonha como essa.

Se me é permitido comparar uma grande coisa com uma pequena, diria que o acontecimento histórico da mais alta importância que constitui tua exclusão e a de Zinoviev, uma exclusão que deve inevitavelmente abrir um período termidoriano na nossa revolução, e o fato de que, após vinte e sete anos de atividade em postos de responsabilidades, não me resta nada mais a fazer que dar um tiro na cabeça, esses dois fatos ilustram uma única e mesma coisa: o atual regime do nosso partido. E esses dois fatos, o pequeno e o grande, contribuem todos os dois para empurrar o partido para o caminho do Termidor.

Caro Leon Davidovitch, nós estamos unidos por dez anos de trabalho em comum, e eu acredito que por laços de amizade também; e isso me dá o direito, no momento da separação, de dizer o que me parece ser uma fraqueza em você.

Nunca duvidei que você estivesse num caminho justo, e, você sabe que, depois de mais de vinte anos, incluindo a questão da revolução permanente, sempre estive ao seu lado. Mas sempre me pareceu que te faltava a inflexibilidade, a intransigência que Lenin provou ter, a capacidade de permanecer sozinho em caso de necessidade e de prosseguir na mesma direção, porque ele estava certo de uma futura maioria, de um futuro reconhecimento da justiça de suas visões. Você teve sempre razão na política desde 1905 e Lenin também o reconheceu; muitas vezes te contei o que tinha ouvido dele: em 1905, foi você e não ele quem teve razão. Na hora da morte, não se mente e eu te repito hoje.

Mas você muitas vezes desistiu da justa posição em favor de uma unificação, de um compromisso cujo valor superestimaste. Foi um erro. Repito: em política, você sempre teve razão, e agora você tem mais que nunca razão. Um dia, o partido te compreenderá e a história será forçada a reconhecer esse fato.

Não se inquiete se alguns te abandonam, e sobretudo se a maioria não vai até você tão rápido quanto nós desejamos. Você está no caminho da verdade, mas a certeza da vitória somente pode residir numa intransigência resoluta, na recusa de todo compromisso, como foi o segredo das vitórias de Vladimir Iliitch.

Muitas vezes desejei dizer tudo isso que acabei de dizer, mas eu me decidi no momento em que te digo adeus. Eu te desejo força e coragem, como você sempre mostrou possuí-las, e uma vitória rápida.

Um abraço. Adeus.

A. JOFFÉ

P.S. - Escrevi esta carta durante a noite de 15 para 16, e, hoje, 16 de novembro, Maria Mikhailovna foi à comissão médica insistir para que me enviem ao exterior, mesmo que seja por um mês ou dois. Responderam que, segundo os especialistas, uma estadia de curta duração no estrangeiro seria totalmente inútil; informaram-na que a comissão decidiu me transferir imediatamente para o hospital do Kremlin. Assim eles me recusam uma curta viagem para o exterior para melhorar minha saúde, no momento em que todos os médicos estão de acordo ao estimar que uma cura na Rússia é inútil.

Adeus, caro Leon Davidovitch, seja forte, é preciso, e é preciso ser perseverante também, e não me guarde nenhum rancor.


Notas:

(1) Adolf Joffé foi um dos homens mais capazes que estavam ao lado de Lenin no tempo da revolução e consagrou toda a sua vida ao movimento comunista. Tomou parte ativamente na revolução de 1905; de início aprisionado, foi em seguida deportado para a Sibéria e submetido ao regime de trabalho forçado. Após a revolução de outubro, na qual teve um papel muito importante, Lenin designou-o para dois dos postos diplomáticos, na época, da mais alta importância para a Rússia soviética: Berlim - ele tinha presidido a delegação russa em Brest-Litovsk - depois Tókio. Ele se matou em 16 de novembro de 1927, com um tiro de revólver na têmpora. Esta carta foi encontrada ao lado de seu corpo. (retornar ao texto)